segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Sonho de um caminho aos 9 anos de idade

O menino sobre a árvore estava com seu sorriso de Sol e de leveza. 
Não sabia seu nome, apenas sua vasta cabeleira clara que ressoava por entre as folhas e as fagulhas que saltavam de seus olhos de menino sobre a árvore. 

Quem se importa com o menino que somente eu sinto em sonho de devaneio, espera, tempo e melodia são as nuvens e a sonoridade da neblina rósea de um campo de trigo, mente e centeio. Como a Virgem e seu cultivo paciente, como a flecha do centauro. Meio cabra, meio peixe. 


Juntos somos o que está em cima bem como o que está embaixo. E toda uma grama que se vê através do muro para o outro lado. Você precisa ser convidado. Você precisa segurar em sua mão firme de menino da árvore e correr, pois já está atrasado. Ele tem olhos de sonho, vivos, cor de caramelo fresco na brisa da manhã, às vezes azuis ou verdes. 


Ele sempre esteve aqui. Desde antes. Ele sempre com seus olhos profundos que se expandem com a melodia de um caminhar sobre a Lua. Estamos atrasados para o grande festim musical, mas entramos, atravessamos de mãos dadas e seguras os caminhos todos. Tocamos nossas flautas e tambores. Seguimos. Sorrimos. Dançamos. Sabemos que nos reencontramos. Novamente.

domingo, 7 de maio de 2017

Carta sobre carta

Rio de Janeiro, 07 de julho de 2016

Olá, L., tudo bem? Fiquei pensando sobre o que escreveria numa primeira correspondência. Matutei durante dias sobre assuntos diversos, desde temas mais rasos sobre a temperatura que faria por aí aos mais profundos e que calam forte dentro da gente feito represa d’água. Mas não, nada disso daria conta ou teria relevância numa primeira carta, pois desses assuntos, a gente proseia quando bem entende, quando o momento pede, quando há uma sincronicidade (como diria o velho Jung, você deveria lê-lo) que eleva o ser “pessoa” ao ato de enxergar mais além e ver junto ao Outro. E esse não é o momento. Bem, vou deixar o fluir sob a forma de uma “metacarta” (uma carta sobre o próprio fazer-se carta). Não como receita de bolo, pois não há fórmula pronta, pré-estabelecida, não há medidas, não se pode ser julgada de tal modo, isso seria grande bobagem e quase uma afronta ao ser-carta. Porém, essa receita serve muito bem para escritos que passam por outros processos de transformação e depuração. A carta possui mais um elemento bruto, como sonata quase pronta, vem do solo de nossos dedos até a ponta da caneta. Não se torna menos interessante por isso, pelo fato de não encontrar a alquimia dos alimentos que são fervidos, que são cozidos, que são transmutados e se plantam sobre um prato por cima de uma mesa de madeira. Eu vivo com fome, pensar sobre como alimentar e todos esses processos de forma mental, poética e alquímica fazem parte de um dos meus sistemas de pensamento. A carta é como um veículo, como um carro, um trem, mas que se locomove pelos dedos que possuem o conhecer de decodificar um sistema de símbolos tão primário aos nossos olhos, mas tão complexo se olharmos com o pensar um pouco mais atento: o alfabeto. O alfabeto conhece (em parte) todas as possibilidades de transições entre estágios de humor, passado, presente e futuro da vida dos seres deste planeta. Podemos escrever uma carta como se a gente fosse um animal, o alfabeto possibilita isso, mas seria pretensão tentar sentir e pensar plenamente como cobra ou como beija-flor ou como taturana. A torre de babel já desabou há um bocado de tempo. Portanto, palavras limitam, mas expandem ao mesmo tempo, tudo misturado, e daí entra o elemento que seria o Mercúrio para alquimia: quando verbo e movimento de forma simples se humanizam, se harmonizam. O simples é o contrário de fácil. Cultuo a simplicidade da carta, pois ela parte de premissas que ocorrem em cotidianos, nas pessoas observadas pela gente quando se senta num banco de praça qualquer, despretensiosamente. Ser despretensiosa, caminhar ao sabor dos ventos (quando enviada para outro país), entrar numa garrafa e vagar por cidades e Estados, essa é carta, uma delas, das que estão cheias de coragem para serem postas em garrafas e viajar por mares, terras e ares, por isso elas são também aqui chamadas de brutas. Porque na sua delicadeza tão tímida são fortes e comportam uma imensidade de caminhos e de vidas.

Atenciosamente,


A.

sábado, 7 de janeiro de 2017

Breve consideração sobre um início

A Lei Tríplice e a Roda da Fortuna entram em comunhão mágica como forma de alquimia ao mostrar que aqueles que estão sob os pés de outrem, na terra pisada, cansada, se tornarão uma ave, um pôr-do Sol, um mistério sereno, uma alegria repentina, uma toada antiga, porém nova quando tocada, uma sorte que os ventos trazem através de pontuação de nomes esquecidos no coração dos astros. Nunca sejas fechado aos Destinos dos Homens, cantou alguém há uns bons pares de anos. 

Mas aqueles que com arrogância impostaram suas sinuosas sobrancelhas em montes de merda e areias quaisquer vão descender em grau, virtude, fonte, sorte, norte, corte, termo e face em barulho de rítmico serrote, espelhado em si, na velocidade de sua própria queda, pois língua num é osso, mas quebra osso e quem ascendeu, hora dessas vai moer moinhos por debaixo da foice da terra fria, embaralha de novo, há mais uma partida, aposta as fichas, perde tudo, ganha em calvície, cabelos brancos, sorrisos bonitos e coração profundo, essa profusão é um esplendor quando mirada com os dois olhos em terra de cego, ambos fixos. 

Covardia se paga com coragem, assim como a Coragem é paga com covardia, mas faz parte do rei está morto, viva o rei, é um jogral, uma paráfrase de um tensionado Destino que arrebenta corda e encaracola-se em si, voltando a ser musicada in utero, embaraçada em sua prazerosa extensão aguda de quase corda de berimbau, quase fio de teia que aranha tece. E a única norma que pode ser forma é nenhuma regra ter, parafraseando divino intenso Belchior, é nunca fazer nada que o mestre mandar, sempre desobedecer, nunca reverenciar, algo assim, mais ou menos ou mais para mais que para menos, inclusive.

Corda bamba vira gangorra de metal pesado, pedra de sal desmancha após tanta água mole, o velho rejuvenesce e o que cresceu é tempo de decrescer, trilha, milho, folha, murcha. A violência é calma, a maré é bravia, tudo que o Sol toca, vira por destemido capricho da noite a Lua e mais um punhado de estrelas que cintilam e que mostram finitude, extensão, propensão, ascendência e descendência, é uma questão de ângulos, espelhos, nortes, como já disse e repito, o circular se faz carne em verbo e necessário pode ser dito em breve momento para logo tudo desfazer, pois é o desnecessário que vira e mexe importa.

Arame farpado

Uma adaga com o punho incrustado de pedras preciosas perfura um coração preso numa tela de arame. O sangue de tonalidade escura, levemente fresco e odor de ferrugem, penetra papilas e pupilas.  É a vida que escureceu-se num beco sem sabor e apodreceu sob um cinza céu acima de nossas cabeças num domingo ao cair da tarde não percebida. Um velho gato me disse: “é bom ter você de volta, senti saudades”. 

Qual foi a última que fui tão longe? Pensei que dessa vez não voltaria, fica cada vez mais difícil voltar e encontrar as notas certas para cobrir aquela frase musical ou aquele rabisco que prometi a você ou mesmo para retornar e comer um prato de comida, tomar um banho, vestir roupas limpas, dar um jeito no apartamento. As palavras se tornam cotidianamente um arame sabor ferrugem em meus dentes, é como se houvesse uma faca presa entre minha arcada dentária. 

Hoje eu realmente fui muito longe, as imagens do gato branco e preto de minha infância, essa herança genética preenchida de medo, a imagem em looping na cabeça de um sonho sobre a degola de uma mulher que jurei vingança (mas antes de tudo um abraço e um riso sardônico), o arame de coração humano e ainda vermelho vivo, acabava de sair do corpo de alguém, as pedras eram de um tom violáceo que davam à peça cardíaca um aspecto de putrefato antes do tempo. 

O coração corpóreo e incrustado começou a cercar-se de pássaros negros que dançavam em círculos leves, ritmados, em seu entorno. Olhei para o alto e observei por cerca de treze minutos exatos os movimentos destes e das nuvens que se cobriam de poeiras e camadas de várias tonalidades de branco. Como esses animais sobreviviam, eles eram uma dança para o meu tédio concêntrico. Resolvi fechar as janelas, escovar os dentes e me esqueci do coração momentaneamente.