Rio de Janeiro, 07 de julho de 2016
Olá, L., tudo bem? Fiquei pensando sobre o que
escreveria numa primeira correspondência. Matutei durante dias sobre assuntos
diversos, desde temas mais rasos sobre a temperatura que faria por aí aos mais
profundos e que calam forte dentro da gente feito represa d’água. Mas não, nada
disso daria conta ou teria relevância numa primeira carta, pois desses
assuntos, a gente proseia quando bem entende, quando o momento pede, quando há
uma sincronicidade (como diria o velho Jung, você deveria lê-lo) que eleva o
ser “pessoa” ao ato de enxergar mais além e ver junto ao Outro. E esse não é o
momento. Bem, vou deixar o fluir sob a forma de uma “metacarta” (uma carta
sobre o próprio fazer-se carta). Não como receita de bolo, pois não há fórmula
pronta, pré-estabelecida, não há medidas, não se pode ser julgada de tal modo,
isso seria grande bobagem e quase uma afronta ao ser-carta. Porém, essa receita
serve muito bem para escritos que passam por outros processos de transformação
e depuração. A carta possui mais um elemento bruto, como sonata quase pronta, vem
do solo de nossos dedos até a ponta da caneta. Não se torna menos interessante
por isso, pelo fato de não encontrar a alquimia dos alimentos que são fervidos,
que são cozidos, que são transmutados e se plantam sobre um prato por cima de
uma mesa de madeira. Eu vivo com fome, pensar sobre como alimentar e todos
esses processos de forma mental, poética e alquímica fazem parte de um dos meus
sistemas de pensamento. A carta é como um veículo, como um carro, um trem, mas
que se locomove pelos dedos que possuem o conhecer de decodificar um sistema de
símbolos tão primário aos nossos olhos, mas tão complexo se olharmos com o pensar
um pouco mais atento: o alfabeto. O alfabeto conhece (em parte) todas as
possibilidades de transições entre estágios de humor, passado, presente e
futuro da vida dos seres deste planeta. Podemos escrever uma carta como se a
gente fosse um animal, o alfabeto possibilita isso, mas seria pretensão tentar
sentir e pensar plenamente como cobra ou como beija-flor ou como taturana. A
torre de babel já desabou há um bocado de tempo. Portanto, palavras limitam,
mas expandem ao mesmo tempo, tudo misturado, e daí entra o elemento que seria o
Mercúrio para alquimia: quando verbo e movimento de forma simples se humanizam,
se harmonizam. O simples é o contrário de fácil. Cultuo a simplicidade da
carta, pois ela parte de premissas que ocorrem em cotidianos, nas pessoas
observadas pela gente quando se senta num banco de praça qualquer,
despretensiosamente. Ser despretensiosa, caminhar ao sabor dos ventos (quando
enviada para outro país), entrar numa garrafa e vagar por cidades e Estados,
essa é carta, uma delas, das que estão cheias de coragem para serem postas em
garrafas e viajar por mares, terras e ares, por isso elas são também aqui
chamadas de brutas. Porque na sua delicadeza tão tímida são fortes e comportam
uma imensidade de caminhos e de vidas.
Atenciosamente,
A.
Excelente,Ana...é sempre bom ler você,muito grato.
ResponderExcluirQuanto tempo mesmo,estou sempre por aqui,adoro seus textos,Ana...você é ótima...forte abraço e um beijo.
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